Mentoria reversa: a voz como lugar social

  • 12/fev/2020

“A mentoria reversa mostra que, independentemente do cargo que ocupam, todos os profissionais possuem experiências que contribuem para o crescimento da empresa como todo”

 

 

Muitos colegas que atuam em Gestão de Pessoas me perguntam como tenho trabalhado a convivência entre diferentes gerações no ambiente de trabalho e a temática da diversidade neste contexto. Nos inspiramos no conceito de mentoria reversa, difundido no final da década de 1990 pelo então presidente da General Eletric, Jack Welch, nos Estados Unidos. Originalmente, a ideia era que os jovens profissionais da companhia ensinassem os gestores a usar a internet.

 

Atualmente, a prática vem sendo usada por várias empresas com abordagens muito mais amplas. A oportunidade de os jovens compartilharem seus conhecimentos estão além do universo online. Há espaço para conversas sobre comunicação, inovação, diversidade e inclusão.

 

A mentoria reversa mostra que, independentemente do cargo que ocupam, todos os profissionais possuem experiências que contribuem para o crescimento da empresa como todo. A quebra das barreiras hierárquicas permite ao gestor se abrir para novos conceitos e ideias, enquanto o jovem mentor ganha um lugar de fala, em que compartilha sua própria história, lutas e conquistas. Nessa dinâmica, a voz é preponderante para promover mudanças de pontos de vista e, consequentemente, impulsionar transformações culturais.

 

É quando o gestor deixa os manuais e teorias de lado e se abre para entender a opinião que vem das pessoas que posicionam a empresa no mercado. Eu mesma, recentemente, fui mentorada por um jovem de 22 anos que me mostrou mais sobre o dia a dia dessa geração, além do meu ponto de vista. Mesmo como gestora da área de Recursos Humanos há muitos anos, envolvida na contratação e desenvolvimento de pessoas, participar dessa mentoria foi ótimo para entender as motivações desses profissionais.

 

Quantas vezes não ouvimos dizer que os jovens só querem trabalhar por um propósito? Não que essa afirmação seja falsa, mas ao ouvir meu mentor, falamos sobre outras tribos que têm outros interesses. Percebi como funcionam as bolhas sociais criadas na internet e como eles se sentem pressionados em participarem de uma vida cada vez mais competitiva e superficial, em que todo mundo se mostra feliz e instagramável.

 

Eles são bombardeados por muitos estímulos, polarizações e fake news nas mídias sociais, assim como nós, mas nem sempre têm maturidade para lidar com toda a pressão da sociedade. E tudo isso se traduz em angústia, ansiedade e um senso constante de inadequação, que têm se estendido frequentemente além da adolescência e afetado sua saúde mental de forma geral.

 

Ao mesmo tempo em que, neste processo de troca, compreendemos seus anseios, temos responsabilidade emocional em ajudá-los na sua trajetória real. A voz do meu mentor, que poderia ser de qualquer outro jovem dentro da empresa, me mostrou o cuidado ainda maior que precisamos ter, não só como companhia, mas como sociedade, de ouvir o outro e dar espaço para que a troca de experiência aconteça de fato.

 

São novos tempos e é preciso discutir horizontalmente quais os impactos de tantas mudanças culturais e sociais que vivemos não só em casa ou na rua, mas também dentro das paredes da empresa. Assim como grandes empresas dizem aprender com as startups, precisamos furar a bolha e aprender com as novas gerações.

 

Há poder na escuta ativa e isso nos leva a construir uma empresa muito mais humana, inclusiva, diversa e inovadora.

 

*Soraya Bahde é diretora de Gente e Inovação na Alelo, bandeira especializada em benefícios, gestão de despesas corporativas e incentivos. Formada em administração de empresas pelo Mackenzie, com especialização em Marketing, possui cerca de 15 anos de experiência em implementação de estratégias de recursos humanos e transformação cultural e de negócios.

 

Fonte: Portal Administradores

 

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